'Peça fundamental': em júri popular, promotora aponta papel central de réu na morte de Moïse
15/04/2026
(Foto: Reprodução) Vídeo mostra acusado de morte de Moïse tirando foto com vítima imobilizada
A promotora Rita Cid Varela Guitti Guimarães, afirmou nesta quarta-feira (15), em júri no Rio, que Brendon Alexander Luz da Silva, conhecido como Tota, teve papel central na morte do congolês Moïse Kabagambe, em 2022.
O crime aconteceu em 24 de janeiro de 2022, em um quiosque na Praia da Barra da Tijuca, onde Moïse trabalhava. Segundo as investigações, ele foi agredido com pauladas, chutes e socos até a morte após cobrar o pagamento de diárias atrasadas.
Segundo a promotora, que atua no Grupo de Atuação Especializada do Tribunal do Júri, do Ministério Público do Rio, o réu não apenas participou das agressões, como foi determinante para que elas ocorressem.
A declaração foi feita após a exibição de áudios enviados pelo próprio réu na noite do crime e de imagens de câmeras de segurança do quiosque onde Moïse trabalhava.
Moïse Kabamgabe
Reprodução
Nos áudios, Brendon demonstra tranquilidade ao comentar o ocorrido com um amigo.
"Graças a Deus estou muito tranquilo (...) Até troquei de roupa já. Vi que tinha chegado a ambulância lá, mas não tinha viatura da polícia", disse o réu na noite do crime.
Na sequência, os jurados assistiram a vídeos que mostram o início da confusão e a atuação direta do réu nas agressões. Para a promotora, as imagens evidenciam o protagonismo dele no crime.
"Ele foi peça fundamental nesse crime. Foi quem derrubou e imobilizou o Moïse", afirmou.
Imagens mostram atuação do réu nas agressões
As imagens exibidas no plenário mostram que a confusão começou após um desentendimento entre Moïse e um homem identificado como Jailton, por causa de uma cerveja.
Minutos depois, o réu aparece no vídeo e avança contra a vítima. Ele aplica um golpe conhecido como “baiana”, derruba Moïse e passa a imobilizá-lo.
Ao longo da gravação, o congolês permanece contido enquanto sofre uma série de agressões. Segundo a promotoria, é possível contabilizar ao menos 37 golpes, entre socos, chutes e pauladas.
Outros envolvidos aparecem nas imagens filmando a cena, enquanto as agressões continuam. De acordo com a acusação, ninguém acionou a polícia durante o espancamento.
A promotora também destacou que o funcionamento do quiosque seguiu normalmente durante a violência, com venda de bebidas ocorrendo ao mesmo tempo.
A promotora usou tom irônico ao comentar o comportamento do réu durante a ação.
"Dá pra ver que ele estava muito preocupado com a vítima. Depois de cerca de 10 minutos de imobilização, ele pede para tirar uma foto da posição de jiu-jitsu que aplicava", disse.
Segundo ela, o réu chegou a fazer um gesto conhecido como “hang loose” no momento da foto.
"Eles amarraram uma corda nas pernas, mãos e pescoço do Moïse, mas ele estava, sim, preocupado com a vítima", acrescentou.
Brendon, acusado de morte de Moïse, tirando foto com vítima imobilizada
Reprodução/TV Globo
Familiares se emocionam durante exibição
Durante a exibição de trechos mais violentos, familiares de Moïse que acompanhavam o julgamento se emocionaram.
Quando as imagens mostram agressões com um pedaço de madeira, uma mulher da família chorou intensamente no plenário.
Promotoria diz que réu simulou tentativa de socorro
Outra promotora do caso exibiu imagens que mostram os momentos após as agressões.
Segundo a acusação, o réu deu um último chute em Moïse às 22h40, quando a vítima já estava caída e possivelmente morta.
Minutos depois, um casal de banhistas se aproxima do local. A mulher se assusta ao ver o corpo imóvel e percebe que Moïse não apresenta sinais de vida.
De acordo com a promotoria, só então o réu se aproxima e simula uma tentativa de socorro.
"Isso só acontece porque um casal passou pelo local e viu o corpo", afirmou a promotora.
As imagens mostram o réu aparentemente realizando uma massagem cardíaca cerca de 11 minutos após o último chute.
Para a acusação, a ação não teve caráter real de salvamento.
"Não teve ninguém ali querendo salvar ele", disse.
Promotoria diz que réu tentou apagar vestígios
Na sequência dos vídeos, o réu aparece indo até o bar e retornando com água, que joga sobre o corpo da vítima.
Segundo a promotora, ele molhou regiões como tornozelos, pulsos e pescoço.
A acusação sustenta que a intenção era apagar vestígios das amarrações feitas durante o crime.
"Ele não queria salvar, apenas disfarçar o crime. Essa corda nunca foi encontrada, diferente da madeira utilizada, que foi localizada", afirmou.
Defesa tenta desclassificar crime
A defesa de Brendon Alexander Luz da Silva sustentou, durante o julgamento, que o réu não teve intenção de matar Moïse e pediu aos jurados a desclassificação do crime para lesão corporal seguida de morte culposa — quando não há intenção de matar –, o que pode reduzir significativamente a pena em caso de condenação.
O advogado Peterson Vieira, responsável pela defesa de Brendon, argumentou que seu cliente tinha 21 anos na época e ainda não teria pleno discernimento sobre as consequências da ação. Segundo ele, o réu agiu com a intenção de conter uma situação de conflito, e não de provocar a morte da vítima.
"Ele agiu no interesse de fazer justiça (...) Eu não estou sustentando legítima defesa, mas estou falando sobre dolo, sobre intenção. E a intenção não pode ser avaliada em nenhum vídeo. Ele disse que não queria matar o Moise", afirmou Vieira.
De acordo com a defesa, Brendon não imaginava que o golpe de imobilização pudesse levar à morte. O advogado afirmou ainda que o réu manteve Moïse contido por medo de que, ao ser solto, ele pudesse reagir e atacar outras pessoas.
Durante a apresentação, os jurados assistiram a depoimentos anteriores de Maycon e Jailson, que estavam no local no dia do crime. Nos relatos, eles afirmam que Moïse teria iniciado a confusão por causa de cerveja.
A defesa também afirmou que Brendon teria pedido para que os outros envolvidos não agredissem a vítima enquanto ele a imobilizava. Segundo o advogado, a tentativa de reanimação com massagem cardíaca indicaria que não havia intenção de matar.
Dois réus já condenados
Brendon, conhecido como Tota, é o último dos três denunciados como executores do crime a ser julgado.
Os outros dois réus — Fábio Pirineus da Silva e Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca — foram condenados em março de 2025 a penas que, somadas, chegam a 44 anos de prisão em regime fechado. Aleson recebeu 23 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão, e Fábio, 19 anos, 6 meses e 20 dias.
De acordo com a denúncia do Ministério Público, imagens de câmeras de segurança mostram que o réu participou diretamente das agressões, derrubando e imobilizando a vítima durante o espancamento.
Em depoimento à polícia, dias após o crime, ele afirmou que é lutador de jiu-jítsu e disse estar com a “consciência tranquila”, alegando que apenas conteve Moïse.
As investigações apontam que os três acusados agrediram a vítima com um pedaço de madeira, além de socos e chutes, durante cerca de 13 minutos. Mesmo sem apresentar resistência, Moïse foi amarrado e permaneceu imobilizado durante a violência.
Um dos momentos que mais repercutiram no caso foi registrado nas imagens do quiosque: o réu aparece posando para uma foto ao lado de outro acusado enquanto a vítima estava caída, amarrada e aparentemente desacordada. Na sequência, ele faz um gesto conhecido como “hang loose”.
Nos julgamentos anteriores, o Conselho de Sentença acolheu as teses do Ministério Público e reconheceu que o crime foi cometido por motivo banal, com extrema crueldade e mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
Fábio (à esquerda) e Aleson (à direita) já foram condenados; Brendon (no meio) será julgado nesta quarta
Reprodução
Áudios e imagens exibidos no júri mostram atuação do réu nas agressões; acusação diz que ele imobilizou a vítima durante o espancamento.